Racismo and me ( parte 3)

Certa vez conheci um pesquisador, professor universitário. Homem muito bonito educado e engraçado. Eu trabalhava na biblioteca e o atendi durante semanas. Depois de muitas conversas e cafés, ele me convidou para sair. Fiquei feliz pelo convite e vi que ele tinha um interesse que ia além do bate-papo. Nos encontramos em sua casa e depois de um belo jantar, ele me disse que me achava muito bonita e alegre. Lá pelas tantas me contou que se sentia muito atraído por mim, pois eu lhe lembrava a moça com quem ele teve sua primeira relação sexual. Fiquei confusa, mas ele me contou a história. Era um adolescente e estava na fazenda de seu avô, onde dentre os tantos empregados, havia uma moça negra que trabalhava na casa e que ele admirava de outros tempos. Naquela ocasião tomou coragem e a levou para o lugar onde dormem os cavalos, e em meio as palhas ele teve sua primeira vez. Segundo seu relato, ela consentiu. Fiquei sem reação pois, para ele, era uma bela lembrança, para ele, um episódio importante na vida de qualquer homem, mas me chocou a situação. Não sei se continuaram com as “brincadeiras” mas o fato é que aquela moça negra, lhe proporcionou sua primeira experiência sexual. E eu ali lhe trazia estas lembranças. Perdi o tesão e o interesse.

Nessa época da minha vida eu não conhecia as questões do feminismo negro, pelo menos não sabia nada sobre. Fiquei me sentindo como uma lembrança de algo feio, não que transar com a emprega seja feio, mas despertei lembranças de um ato cuja a realização do desejo e o poder masculino do neto do patrão, branco e da cidade, era algo inquestionável.

A sociedade alimenta o imaginário calcado no estereótipo de que as mulheres negras são fogosas, sempre prontas a atender, satisfazer e realizar as fantasias sexuais dos outros. Para muitos isso pode ser um elogio. Não há nenhum problema em gostar, e fazer sexo, o problema surge quando se acredita que todas as mulheres negras têm este tipo de desejo, e estarão abertas a satisfazer todos os homens, no entanto quando isso não acontece muitos homens se ofendem e partem para agressão física e moral.

Conheci também homens que me admiravam, talvez pelo meu bom humor ou pela minha beleza, e talvez até pelo meu intelecto, mas que nunca conseguiram me ver além de uma diversão. Homens que se apaixonaram mas não conseguiram ir além de um relacionamento fugaz. Hoje consigo entender, mas durante muito tempo acreditei que minha mãe estivesse certa. Para ela um homem branco quando se interessa e se aproxima de uma moça negra quer apenas se aproveitar. Falava com conhecimento de causa, porque antes de se casar teve uma péssima experiência com um homem branco. Foram anos de um sentimento de inadequação e exclusão, que não te afasta do espaço, mas constrói muros invisíveis e que não avança para uma relação igualitária.

Se eu demorei a perceber e entender isso, imagino que a maioria destes homens que passaram pela minha vida não tenham chegado ao mesmo entendimento. Não os culpo totalmente, pois eles eram pessoas legais, mas sem um mínimo de empatia por esta questão. O fato deles terem amigos negros basta para que se livrem de qualquer tipo de questionamento. Não conseguem perceber o nível sutil do racismo em suas atitudes ou pensamentos

Há pouco tempo descobri pesquisas e textos, que tratam da solidão da mulher negra e como isso é construído diante das condições econômicas e sociais no Brasil. Apesar de termos conquistado alguns poucos postos de destaque, a diferença entre os tratamentos e as barreiras a serem rompidas são inimagináveis para a maioria das pessoas. Além de ser difícil a entrada em alguns círculos, ao meu ver a maior barreira ainda é a interna. Desconstruir dentro de si os modelos que sua família lhe passou, inventar um modo de ser, se alimentar diariamente de energia para prosseguir, saber brigar por seus direitos e ainda aprender a se amar sem preconceito.

Uma jornada nada fácil, e como disse certa vez uma colega inteligentíssima, que era negra e havia feito doutorado em filosofia na Alemanha: Amiga, a gente acaba querendo dar conta das questões desses homens brancos, que nos amam, mas vivem em conflito com isso, e além disso nossas questões com o racismo. É muita coisa, eu desisti, optei por ficar sozinha !!!

Pois vejo que nem sempre quando conquistamos sucesso estamos livres dos sentimentos de inadequação, exclusão ou solidão. Ainda há muito que avançar, mas aos poucos vejo mudanças acontecendo. Pelo menos as meninas negras de hoje podem ver na TV mulheres negras que não sejam empregadas, dançarinas e passistas. Mas há muito a se conquistar.

Janeiro de 2020
Por Pary Souza

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *