Nesses tempos de reclusão penso naquelas mulheres que mais uma vez fazem das tripas coração para levar o sustento para suas famílias. Com a chegada do Covid-19 milhares de pessoas perderam seus empregos, e outros milhares perderam seus trabalhos. E essas mulheres, mães, avós e filhas mais uma vez vão à luta, uma luta que parece fazer parte de seu DNA, uma luta por uma vida digna que não deixa espaço para calmaria. Um pouco antes da pandemia ouvi um podcast muito interessante Cores e Valores, que relacionou questões de ancestralidade, sexualidade e dinheiro às mulheres negras. Não saberei reproduzir aqui o interessantíssimo bate-papo de mais de uma hora. Compartilho o link e indico que escutem episódio O que sexualidade e ancestralidade nos dizem sobre dinheiro? – Cores & Valores #04 . https://podcasts.apple.com/us/podcast/o-que-sexualidade-e-ancestralidade-nos-dizem-sobre/id1498924450?i=1000470405102 O que mais me tocou foi uma questão que vejo desde que me entendo por gente, e com a qual você também já deve ter se deparado. Refiro-me à mulher negra chefe de família, que, sozinha, cria os filhos e cuida de todos os afazeres domésticos, também conhecida como uma pessoa batalhadora, empreendedora, esforçada, guerreira, multitarefas, pau pra toda obra, ou, a que está sempre no corre. Mulheres que mesmo sem estrutura, apoio ou formação, dão conta de sua família nuclear, irmão, pais e agregados que estão em sua órbita. Elas são como um sol, um astro rei que traz energia e luz, amparo material e principalmente emocional. Parecem supermulheres, já que nunca descansam e sabem como ninguém tirar leite de pedra, mas são reais e compõem a maioria de brasileiras. E nessa batalha, nesse corre que é estar sempre armada para matar um leão por dia, muitas se envolvem com homens fracos e machistas. Homens que seguem à risca os comportamentos do patriarcado: dominadores, mandões, viciados em bebida e drogas, agressivos e que não hesitam em usar os corpos de suas companheiras como válvulas de escape para afogar suas frustrações. E aí nos perguntamos: por que isso acaba virando um padrão? As raízes históricas nos dão algumas chaves para entender esse fenômeno. Antes da lei Áurea temos inúmeros casos de mulheres que conseguiram sua alforria comprando sua liberdade por terem conseguido juntar dinheiro. Eram negras escravizadas que mantiveram a tradição africana do comércio. Essa prática de as mulheres atuarem no comércio foi incorporada por muitas mulheres brasileiras, a ponto de encontrarmos inúmeros relatos de mulheres que mesmo realizando trabalhos forçados encontravam uma maneira de fazer pequenos serviços que lhes propiciavam uma renda extra. As mulheres, por exemplo, vendiam quitutes, hortaliças, eram babás, amas-de-leite, lavadeiras. Nas cidades, também eram mais comuns os chamados “escravos de ganho” – quando as pessoas escravizadas prestavam serviços para terceiros, sendo obrigadas a entregar o dinheiro para seus proprietários, ficando apenas com uma pequena parte. (ROSSI).Esta prática teve início na Bahia, onde além das trabalhadoras, as Irmandades dos Homens e Mulheres Pretos criou redes de solidariedade proporcionando a liberdade de muitos homens e mulheres antes mesmo da abolição. As mulheres se tornaram quituteiras, passadeiras, lavadeiras, vendedoras de frutas e legumes nas ruas das grandes cidades do país. As baianas do acarajé foram das primeiras a serem identificadas como mulheres comerciantes. A prática conseguiu um importante reconhecimento quando as Baianas do Acarajé entraram para o patrimônio cultural imaterial do país em 2005, graças ao tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em seu Livro dos Saberes.Quando a abolição foi finalmente promulgada em 1889, os negros ganharam a liberdade, mas perderam o teto e o sustento, e aquelas mulheres que já proviam seu sustento foram de uma importância fundamental para manutenção da estrutura econômica de muitas famílias. Não só as que já eram alforriadas, mas as negras em geral tiveram uma maior facilidade de se manterem trabalhando, pois elas continuaram a trabalhar nos serviços domésticos. Os homens tinham menos ofertas de trabalho visto que com a chegada dos imigrantes ao país muitos proprietários preferiram o trabalho dos europeus a força de trabalho dos negros. Voltando aos nossos dias, acredito que nossas heroínas do dia-a-dia se formaram dentro de uma tradição de mulheres que batalharam e conquistaram seu sustento, e que cresceram ouvindo histórias de suas mães, tias e avós que lhes deixaram modelos femininos fortes, cheio de garra e determinação. Creio que a maioria era de mulheres que tiveram um papel preponderante no apoio e sustento da família. Porém, para que a história não se repita e consigamos avançar em termos civilizatórios é necessário olhar para esse passado, refletir e fazer uma mudança no que diz respeito à valorização dessa massa de mulheres que fazem tudo por todos, e muito pouco por si.

Pary Souza

REFERÊNCIAS.O Ofício das Baianas de Acarajé – http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/58ROSSI, Amanda. Como escravos entravam na Justiça e faziam poupança para lutar pela liberdade. BBC Brasil. 19/02/2018. https://www.bbc.com/portuguese/geral-43078878

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *