Racismo and me ( parte 1)

Sou uma mulher negra de pele morena, com lábios grossos, sorriso largo e cabelos encaracolados. Uma beleza sem nada de extraordinário. Essas características genéticas, aliadas ao gosto pela dança, alimentam alguns estereótipos internalizados no imaginário masculino. Quando criança e adolescente costumava ouvir comentários do tipo: Ela pode dar uma bela mulata do Sargentelli !

Aos 14 anos me chamavam de Alcione, a marrom, uma alusão à grande sambista maranhense. As mulheres negras que eu via na TV eram, além das próprias mulatas do Sargentelli, a Tia Anastácia do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” adaptado de Monteiro Lobato; as personagens negras das novelas e filmes, que via de regra faziam papéis de empregadas domésticas; e a Globeleza, que durante anos dançou seminua anunciando o carnaval. Sonhava em ser passista ou Rainha de Bateria, papéis sociais onde era possível encontrar moças com os mesmos traços que o meus ocupando lugares de destaque.

Mas dentre os pouquíssimos exemplos de mulheres negras oriundos dos produtos da indústria cultural, uma delas me encantou. Eis que o filme de Cacá Diegues, Chica da Silva, de 1976, trazia a linda e exuberante Zezé Mota no papel da escrava que foi amada por seu senhor, que a libertou e lhe deu tudo o que uma mulher rica de sua época poderia ter, inclusive escravos. Apesar de ser rica e poderosa, Chica não pode realizar o sonho de conhecer a Corte, já que acarretaria problemas para o seu amado João Fernandes. A realeza portuguesa jamais aceitaria conviver com uma negra que não fosse de maneira servil. Este filme me trouxe pela primeira vez a dimensão do poder do racismo na vida das pessoas “de cor”, como a exclusão dos negros ultrapassava a questão econômica, e no caso do filme ficou muito claro que dinheiro e poder não torna uma pessoa “igual” aos brancos.

Legendas:
Foto 01: Zezé Mota no filme Chica da Silva (1976)
Foto 02: Oswaldo Sargentelli e suas Mulatas.1.

1 Osvaldo Sargentelli (Rio de Janeiro, 1923-2002) foi um radialista, apresentador de televisãoe empresárioda noite. Em 1964, teve seu programa na TV Tupi censurado pelo regime militar. Abriu a casa de espetáculos “Sambão”, em Copacabana, em 1969. Em 1970, abriu a “Sucata” e, em 1973, o “Oba-Oba”. Em suas casas de shows era exibido o famoso show de mulatas. O grupo fez inúmeras apresentações dentro e fora do país, dando origem a criação da expressão “Mulata tipo Exportação”.

Por Pary Souza 

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