RACISMO AND ME – PARTE 2

Durante muito tempo convivi com o racismo como algo inerente aos espaços que me atraiam, locais onde a maioria era branca e culta, educada, mas preconceituosa. Sempre almejei conquistar um mundo melhor do que aquele em que nasci.

Aos 7 anos meu modelo de casa era a da Feiticeira, a bruxa mãe de família do seriado da televisão -transmitido de 1964 a 1972- , que vivia num lar típico de classe média estadunidense, inclusive com biblioteca e escritório. Minha mãe me chamava de metida e dizia que eu era muito ambiciosa, e ambição era pecado grave, pois segundo ela deveríamos aceitar o que Deus nos dá.

Na minha juventude conheci outros deuses, divindades que me legaram outros valores, como a percepção que o divino habita em nós, e que não viemos ao mundo para sofrer. Isso me deu um novo sentido, e pude alimentar minha espiritualidade com novas fontes.

Nunca dei muita atenção a cor das pessoas. Para mim todos eram simplesmente seres humanos. Apesar de me sentir desconfortável em alguns locais, insistia em permanecer para poder desfrutar algo melhor do que minha cor e condição social me destinaram. A rebeldia em questionar normas sempre foi uma característica da minha personalidade, e com isso fui percebendo o racismo que fazia distinções sem o mínimo de lógica.

Certa vez nos anos 80 eu procurava emprego, e depois de preencher fichas de cadastro e passar por um teste numa agência de empregos, eles me encaminharam para a FIESP. Ao chegar na portaria daquele prédio moderno e suntuoso da Av. Paulista reparei que todos ali estavam muito bem vestidos inclusive os seguranças.

As recepcionistas maquiadas eram todas brancas, subi e fui ao andar indicado, depois de preencher mais uma ficha, me solicitaram uma foto que seria anexada ao meu cadastro. Nesse momento eu tive certeza que não conseguiria aquele emprego, pois a foto que eu carregava na carteira, uma 3X4 que havia me deixado muito feia. Tinha 15 anos e no fotógrafo eu tentava me fazer de séria, tentava diminuir o tamanho dos lábios colocando-os para dentro, uma espécie de bico ao contrário. A luz do flash e o fundo alteraram a cor da minha pele, e meu cabelo, apesar de todo o tempo que dediquei para arruma-lo, estava longe de se apresentar como os das revistas de moda.

A maternidade também me apresentou situações de racismo em espaços inusitados tais como escolas, postos de saúde e consultórios médicos. Por ter um filha branca e encantadora, muitas pessoas estranhavam quando dizia que eu era a mãe daquele bebê lindinho. Vendedores ou pesquisadores que batiam em minha porta e perguntavam “ A dona da casa está?”. Um racismo sutil, pois para aquelas pessoas eu jamais poderia ser a dona daquela casa na Vila Madelana (bairro de classe média de São Paulo). Ainda na Vila, muitas vezes quando estava com minha pequena na praça me perguntavam se eu babá. Aquilo me entristecia, mas não havia com quem compartilhar esse sentimento.
Ouvi também muitas frases ridículas. Certa vez numa festa alguém ousou: Dança, você̂ não é mulata!? Tem o samba na veia!!! Como se todas as negras nascessem dançando como a Globeleza. Mas por ter, com o passar do tempo, entendido como funcionava essa lógica, relevava e fazia uma piada.
Mas a vida vai nos ensinando, e sei que também deixei muita gente perplexa com minha inteligência e atitudes. Conviver com pessoas de outras classes sociais me ajudou a entender as estruturas de pensamento e de valores de nossa sociedade.

Por Pary Souza

Legenda:

Foto 01: Elizabeth Montgomery e Dick Sargent em episódio natalino da série A Feiticeira..*Foto do episódio que trata sobre racismo.

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/series/ha-meio-seculo-feiticeira-usou-blackface-para-falar-condenar-racismo-e-levou-emmy–22064

Foto 02: Ama de leite – Salvador século XIX 

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